quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O caso San Zhi - Cap.4



Dia 22 de junho de 1988 - parque de Taiwan


Lena caminhava pelo parque, observando as folhas caírem das árvores. Sua mente vagava em busca de respostas. Acontecera de novo. Apesar de todas as providências tomadas, Chi desaparecera novamente, levando mais duas crianças consigo. Não havia explicações para o fato de três crianças conseguirem escapar do orfanato, não com a polícia de vigia. Se Chi retornasse, teriam que manter uma vigilância de 24h. 


Dia 22 de junho de 1988 - orfanato


   No grande escritório do orfanato, Lena examinava vários arquivos. Registros de crianças desaparecidas há anos e que nunca foram encontradas. Tentava relacionar as histórias com o caso de Chi. O orfanato escondia um passado obscuro, nem todos aqueles relatos estavam registrados no departamento de polícia, não a maior parte deles. A mente de Lena se perdia em meio a tantos rostos de crianças desaparecidas, até que uma em especial chamou sua atenção. Era de menino desaparecido há 30 anos, seu rosto lhe era familiar. Naomi entrou no escritório e sentou ao lado da assistente social.
- Esse é meu filho. Não de sangue, mas é como se fosse. 
- O que aconteceu com ele?
- Desapareceu. Saiu para brincar e nunca mais voltou. Apesar da polícia ter desistido, eu continuei procurando.
- Eu sinto muito, Dona Naomi.
- Então comecei a trabalhar no orfanato. Ele gostava muito de brincar com outras crianças, achei que seria um meio de não perder a esperança.   
- Entendo.
- Com o tempo comecei a achar que era melhor esquecer, ele não iria voltar. Então me apeguei às crianças daqui, a esse lugar.
- E todas essas crianças desaparecidas, o que aconteceu?
- Eu não sei. Apesar de toda a segurança, alguma desaparecia. Isso sempre aconteceu, muito antes de eu vir para cá.


    Lena ficou intrigada, aquilo tudo era muito curioso e certamente não era normal. Guardou todas as folhas e retratos, resolveu dar uma volta pelo casarão. Passou por todos os cômodos, observando cada detalhe. Ficou um tempo no quarto que pertencia a Chi, mas não achou nada fora do normal. Voltou para o hall de entrada e ficou pensando, casas antigas como aquela sempre tinham passagens escondidas. Continuou andando. Dessa vez foi para cozinha. Até que aquele lugar era aconchegante. Uma pequena porta aos fundos chamou sua atenção, parecia uma pequena despensa. Lena abriu a porta, mas não conseguia enxergar nada, estava escuro demais. Pegou a lanterna e conseguiu ver uma pequena escada sumindo no escuro, parecia um porão. Se tivesse um acesso ao lado externo da casa, era um lugar perfeito para fugir. Desceu a escada com cuidado, iluminando cada degrau. Era um porão bem comum, com caixas velhas e algumas coisas quebradas, nada fora do normal. O lugar parecia não ter fim, seria mais fácil examiná-lo se tivesse luz lá embaixo, mas teria que se contentar com a lanterna. Lena estava quase desistindo de achar alguma coisa quando viu o que parecia ser uma janela muito velha; estava bem alta e havia uma caixa logo embaixo que poderia servir de escada. Bingo. 
   
Lena correu para o lado de fora da casa, olhando atentamente para o chão em busca da janela; não encontrou nada. Tinha certeza que havia uma saída do porão para a rua, iria encontrar. Depois de algum tempo procurando, resolveu tentar nos arbustos que ficavam junto à parede. Com um pouco de dificuldade, agachou-se e abriu caminho entre os galhos; conseguiu ver um pedaço da pequena janela do porão. Então foi por ali que eles fugiram. Satisfeita, voltou para a casa e contou sua descoberta a Dona Naomi para que esta tomasse providências. Já estava começando a escurecer, era hora de voltar para casa. Lena entrou no carro, fechou os olhos e respirou fundo, era um alívio saber que agora poderiam evitar os desaparecimentos. Quando estava prestes a sair, viu um menino entre as árvores que cercavam uma parte do casarão. Saiu do carro e foi até ele. Era Chi. Estava com a mesma expressão vazia no rosto, um olhar fundo e assustador.


- Chi! Meu Deus, onde você estava? Escute, Chi, você precisa me dizer aonde está levando os seus amigos.
- Estou levando eles para brincar. - respondeu o garoto com um sorriso no rosto.
- E onde vocês estão brincando? Sabe onde eles estão agora?
O sorriso do menino sumiu. Fitou Lena seriamente.
- Você quer brincar com a gente, moça?
Lena sorriu com uma sensação de vitória.
- Eu adoraria, Chi.      


Dia 22 de junho de 1988 - arredores da cidade


Chi conduzia Lena em silêncio pela floresta e por caminhos estranhos. A assistente social não falava nada, não queria que o garoto mudasse de ideia. Sabia que era um pouco arriscado o que estava fazendo, não sabia com que tipo de gente teria que lidar; no entanto, já estava farta daquilo tudo e sabia tomar cuidado. De repente, o garoto parou. Lena olhou ao redor, estavam na entrada do resort abandonado. Chi soltou sua mão e foi na frente. Ela o seguiu em silêncio e atenta para qualquer movimento suspeito. Lena já havia visto o lugar por fotos, mas nunca estivera lá pessoalmente. O famoso resort de San Zhi era realmente bonito durante o dia, e muito assustador a noite; parecia de fato uma cidade fantasma. Atravessaram o resort até chegar do outro lado do grande lago. Lena podia ouvir crianças cantando ao longe. 


Cesto, Cesto. A ave dentro do cesto. 


À medida que chegavam mais perto, as vozes ficavam mais altas. Mas não havia ninguém.


Quando, quando irá sair? Ao amanhecer. 


 Então Lena pôde ver, eram crianças. Aqueles rostos, todos eram familiares; parecia um sonho. Lena reconheceu as crianças dos retratos de desaparecidos, as crianças que sumiram do orfanato e até... o filho de Naomi. Agora ela se lembrava. A pasta velha em seu escritório, o garoto desaparecido há 30 anos. Lena caiu do joelhos na grama, não podia acreditar no que estava vendo. As crianças a cercaram andando em círculos à sua volta, de mãos dadas, e continuaram a cantar. 


A tartaruga e o corvo escorregaram. Quem está atrás de mim?


Então pararam. Lena só conseguia pensar em uma coisa: o filho desaparecido de Naomi.
- Tamashi...
As crianças riram, menos a que se encontrava atrás dela. 


CONTINUA

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