quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
O caso San Zhi - Cap.3
Dia 18 de junho de 1988 - orfanato
- Como ele está, Ana?
- Continua igual, Dona Naomi. Não quer comer, não dorme e só fica falando sobre levar amigos para brincar.
- Obrigada, Ana, deixe comigo agora.
- Sim, senhora.
Chi estava sentado na cama abraçando seus joelhos. Olhava fixamente para os pés e balançava lentamente, sempre repetindo as mesmas palavras. Lena não reconheceu o garoto alegre da fotografia. Sem dúvida algo havia acontecido, algo terrível. Já havia trabalhado com inúmeros casos assim, crianças felizes que somem e depois de alguns dias voltam traumatizadas, vítimas de violência. Lena reparou então em leves arranhões e machucados no rosto do garoto.
- Chi, essa é Lena. Ela está aqui para conversar um pouco com você, tudo bem?
- Olá, Chi, é um prazer conhecê-lo.
- Eu vou deixá-los a sós. Estarei na minha sala se precisar.
- Obrigada, Dona Naomi.
A diretora do orfanato preocupava-se de verdade com as crianças, isso Lena podia perceber. Não seria fácil fazer o menino contar o que havia acontecido, já que não o fizera nem mesmo para a pessoa que o criara. Mas Lena estava determinada a ajudar o menino.
- Então, Chi, você parece meio triste. Por que não está lá fora brincando com as outras crianças?
- Brincar... preciso levar amigos para brincar.
- Amigos para brincar é muito bom. Onde você quer levá-los, Chi?
- Eles disseram que eu preciso levar... Só assim eu poderia ir.
- Chi, esses amigos com quem você estava... Do que vocês brincaram?
- Brincar... Eles queriam brincar.
- Como conseguiu esses machucados?
Lena colocou a mão sobre o braço cheio de feridas do menino; reparou em algo estranho por baixo da manga. Puxou-a e se assustou, era uma mordida. Pequena, porém violenta.
- Chi, quem fez isso com você? Foi um dos seus amigos?
Pela primeira vez o garoto parou de encarar os pés e voltou o olhar para a mordida em seu braço. Depois fitou Lena, mas não disse nada. A assistente social também fitou o garoto. Não conseguiu encontrar nenhuma expressão em seu rosto. Ele parecia... Vazio.
- Chi, você disse que seus amigos queriam que você levasse mais pessoas para brincar. Se você prometesse levar amigos, eles deixariam você ir, certo?
Chi baixou a cabeça e assentiu. Finalmente uma reação, Lena estava progredindo. Segurava o braço do garoto com delicadeza, queria passar confiança.
- Por que você não me diz quem são os seus amigos? Eu adoraria ir brincar com eles.
O garoto voltou a encarar a moça, forçando um leve sorriso no rosto.
Dia 21 de junho de 1988 - departamento de polícia de Taiwan
- Ei Lena, chegaram mais algumas pastas para você.
- Ah, obrigada. Pode deixar na minha mesa, estou de saída.
- Vai no orfanato de novo?
- Sim.
- Olha Lena, nós recebemos ligações de lá há anos. Crianças que crescem em lugares como aquele são sempre traumatizadas. Acho melhor você investir o seu tempo em um caso-
- Eu não quero saber, Chuck. Aquele garoto foi vítima de violência e eu vou ajudá-lo.
- Tudo bem, só queria alertá-la. Os casos que ocorrem naquele orfanato nunca terminam bem.
- Do que você está falando?
Chuck já havia saído. Mas Lena não se importava, o caso daquele garoto não era um simples problema de orfanato. Havia algo muito errado ali, mas ela já estava prestes a descobrir. Pegou a chave do carro e foi para sua visita diária ao menino Chi.
Dia 21 de junho de 1988 - orfanato
Lena achou estranho não ver as crianças brincando no parquinho, já estava na hora do recreio. Procurou Dona Naomi e encontrou-a em prantos.
- O que aconteceu, Dona Naomi?
- Ah, Lena. Que bom que está aqui! Chi desapareceu, junto com outra criança.
- Como?
- Eu não faço ideia! Coloquei trancas em sua janela e a porta da frente está sempre chaveada, não sei como foram desaparecer!
- Quem mais sumiu?
Naomi entregou-lhe uma foto. Era uma garotinha sorridente e carismática.
- O nome dela é Shay. Tem 5 anos de idade. Oh, meu Deus, tão pequena!
- Não se preocupe, Dona Naomi, vamos encontrá-los. Vou ligar agora mesmo para o departamento mandar viaturas de busca.
As viaturas chegaram rápido, fizeram buscas por todos os lugares. Mas nenhuma das crianças foi encontrada. Quando a lua apareceu no céu, a última viatura voltou. Um dos policias trazia notícias.
- Encontramos essa boneca no chão, perto de San Zhi.
- Ah meu Deus, é da Shay! Essa boneca é da Shay! - disse Naomi, desesperada.
- A senhora tem certeza?
- Sim, tenho! Eu mesma dei a ela!
- Nós não encontramos nenhum rastro. Fizemos uma busca por todo o resort abandonado, mas também não estavam por lá.
- Certo, obrigada, oficial.
- Dona Naomi, é melhor a senhora voltar e tranquilizar as crianças. Um policial vai ficar de vigia esta noite, para garantir que mais ninguém fuja.
Naomi abraçava com força a boneca de Shay; lágrimas escorriam de seus olhos. Lena despediu-se da triste senhora e foi em direção a seu carro. Quando ia entrar, viu alguém se aproximando, vindo da escuridão. Olhou atentamente a figura até que estivesse próxima o suficiente para que pudesse ver seu rosto. Era Chi. Lena correu até o garoto e o abraçou com força. Estava no mesmo estado em que voltara da última vez. Seu olhar parecia mais vazio do que nunca. Lena sabia que não adiantaria de nada encher o menino de perguntas, mas havia algo que precisava saber.
- Chi, onde está Shay?
O garoto sorriu maliciosamente. Depois encarou Lena com uma expressão séria e inclinou um pouco a cabeça.
- Ela foi brincar.
- E onde ela está agora?
- Ela perdeu. Perdeu o jogo.
- Chi, onde está a Shay? Eu preciso que você me diga!
O menino não falou mais nada. Andou tranquilamente até seu quarto, sentou na cama e ficou encarando a janela. Não respondia a nenhuma pergunta, voltara a seu estado de antes.
CONTINUA
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário