terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O caso San Zhi - Cap.1





Dia 13 de junho de 1988 - arredores da cidade




Era uma noite calma em Taiwan. O pequeno garoto de nome Chi andava pelos arredores de sua cidade como de costume, a noite tudo era mais interessante. Esta noite era especial, véspera de seu aniversário. Resolveu aventurar-se um pouco mais do que de costume, explorar novos lugares. Chegou em frente a uma entrada, parecia ser a do famoso resort abandonado. Chi lembrou das palavras de Dona Naomi. Jamais ir nos detritos de San Zhi, era muito perigoso. Para Dona Naomi tudo era perigoso, Chi nem mesmo podia andar de bicicleta sem capacete. Mas foi graças a essa segurança desnecessária que ele pôde começar suas aventuras ao redor da cidade e descobrir lugares incríveis. 
   Chi encarava a entrada, devia ser quase meia-noite. Olhou para a lua brilhante no céu e respirou fundo. Deu um passo. Um vento suave passou pelo seu corpo e Chi se arrepiou. Medo? Como poderia estar com medo? Ja havia ido em inúmeros lugares a noite, não tinha nada para se ter medo. Ainda mais de um lugar abandonado. De repente o medo passou e uma enorme vontade de entrar na famosa cidade fantasma o invadiu. Era como se algo o puxasse, o convidasse a entrar. Então deu mais um passo, mais outro e quando viu já estava dentro do resort. Podia ver o grande lago e as casas-cápsulas ao longe.
   Agora que já estava ali, não tinha mais volta. Ja devia ser meia-noite, Chi agora era um garoto maduro de 12 anos. Riu de si mesmo e do medo que havia sentido, teria muito o que contar às crianças quando voltasse ao orfanato. Continuou andando até chegar bem perto de uma das casas e parou. Apesar da noite, a lua iluminava o suficiente para reconhecer o formato bizarro das casas e até um pouco de suas cores desgastadas. Deveria ser um lugar muito bonito, pensou Chi, se tivessem terminado. E deveria ser ainda mais interessante por dentro, ainda bem que trouxera uma lanterna. 
  De repente sentiu uma sensação estranha, uma presença, como se não estivesse sozinho. Será que havia mendigos por ali? Era algo bem provável pela quantidade de casas abandonadas, mas devido a fama de mal assombrado ninguém se atrevia a entrar no resort. Mas Chi não ouvia barulho algum, se realmente houvesse alguém ali ele saberia. Chi andou ate o grande lago e olhou ao redor. Era calmo e silencioso, nem barulho de insetos no mato ele escutava. Conseguia ouvir sua respiração e seus passos na grama alta, nunca havia estado num lugar como aquele. Pegou a lanterna e iluminou a paisagem ao seu redor. Em qual casa entrar? Fechou os olhos e apontou o dedo aleatoriamente para algum lugar. Sentiu novamente a sensação estranha e algo tocando seu dedo. Abriu os olhos assustado. Chi apontava para uma casa bem no meio, parecia a mais velha e desgastada do lugar. Começou a pensar se era realmente uma boa ideia ir até la, mas lembrou-se de que agora tinha 12 anos, já era um homem. Tomou coragem e foi. 
   As casas eram ainda mais bizarras de perto, estava curioso para vê-las por dentro. Andou ao redor ate achar uma entrada, não foi difícil. Não havia porta, apenas restos de madeira e tijolos ao lado do buraco que era a entrada. Chi entrou tomando cuidado para não pisar nos destroços; apesar da construção ter sido abandonada antes de estar pronta, aquela casa possuía grande parte de sua estrutura completa. Parecia ter sido a última obra feita pelos operários antes de muitos morrerem e o governo abandonar a construção. A casa era tão assustadora por dentro quanto por fora, mas sua estrutura era muito interessante. Chi olhava admirado para cada detalhe que sua lanterna conseguia revelar, objetos esquecidos, instrumentos de construção, tecidos. Reparou numa mancha vermelha em uma das paredes e na enorme janela de vidro. Chi levou um susto ao reconhecer a mancha: era sangue. E não parecia ser velho. Novamente veio a sensação horrível, parecia mais forte. Apontou a lanterna para a entrada e não conseguiu acreditar no que via. Dessa vez havia mesmo alguém ali.
  Chi piscou bem forte e esfregou os olhos, a pessoa sumira. Realmente havia visto alguém ou foi sua imaginação tomada de medo tentando lhe enganar? Segurou firme a lanterna e foi em direção a saída. Voltou para o lago e começou a olhar para todos os lados, assustado. Viu novamente a figura do outro lado, perto de outra casa. A primeira coisa que veio a cabeça foi fugir, sair daquele lugar estranho. Mas pareceu errado. Sentiu que deveria seguir seja lá quem fosse. Deu a volta no lago correndo; a figura desaparecia e aparecia em outro lugar, como se indicasse um caminho. Chi correu até não aguentar mais. Já estava do outro lado do resort e bem perto da floresta. A pessoa também havia parado e o encarava com uma expressão séria. Era um garoto, pequeno, deveria ter por volta de 7 anos de idade. Chi andou em sua direção devagar, com medo de que o menino sumisse de novo. Seu rosto parecia familiar.
- Quem é você?
O garoto não respondeu, apenas o encarava. 
- Ei, quem é você? O que faz aqui a essa hora?
O mesmo que eu, provavelmente. Pensou Chi. 
- Você quer brincar comigo? 
Brincar? Por que um menino desse tamanho esta aqui a essa hora querendo brincar? Chi olhou o garoto desconfiado, não parecia nem ao menos estar com medo, deveria visitar o resort abandonado com frequência.
- Você quer brincar? Mas qual é o seu nome? Eu preciso saber o seu nome para poder brincar com você.
Chi sabia como lidar com crianças assim, afinal convivia com várias.
- Tamashi.
- Oi, Tamashi. Meu nome é Chi. O que você faz a essa hora aqui? É meio perigoso.
- Perigoso, sim. 
- É. Você está sozinho?
- Não. Tenho vários amigos. Nós gostamos de brincar.
- Ah, e onde estão os seus amigos?
- Aqui.
Chi olhou para os lados mas não viu nada. Sera que o garoto estava mentindo?
- Eu não estou vendo os seus amigos.
- Nós queremos brincar com você, Chi.
- Nós quem, Tamashi?
- Vai ser divertido.
Tamashi desapareceu diante de seus olhos. Como ele é rápido! Pensou Chi.
- Tamashi? Aonde você está?
Risos de crianças começaram a ecoar pelo lugar, Chi pode sentir a presença de várias pessoas. Onde estão? Pensou. Não via ninguém e nem escutava passos. Apenas risadas misteriosas vindo do nada. Segurou forte a lanterna e andou em direção ao lago. Ia voltar pra casa, aquilo tudo estava estranho demais.
- Onde você vai, Chi?
- Vem brincar com a gente, Chi!
- Tamashi? Onde você está? Olha, já está muito tarde, vou para casa. Você também deveria ir.
- Você não pode ir.
- Amanhã nós brincamos, certo?
- Você não pode ir, Chi. Nós vamos brincar agora.


CONTINUA

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